Por José Adriano
A reforma tributária não é apenas uma troca de siglas, de alíquotas ou de campos na nota fiscal. Ela inaugura uma mudança estrutural na forma como as empresas compram, vendem, apuram, controlam, projetam caixa e gerenciam risco. Foi exatamente nessa direção que conduzi a conversa com Jorge Campos, do 2o. melhor blog de Reforma Tributária do Brasil, o SPEDBrasil (todos aqui sabemos qual é o primeiro né ?), no novo episódio do José Adriano Talks, apoiado por BlueTax, MitySafe, Grupo LPJ e KTGroup: menos discurso fácil, algumas brincadeiras como essa do nossos blogs, menos simplificação perigosa e mais visão prática sobre o que realmente muda para as áreas fiscal, contábil, tecnológica e executiva.
O ponto de partida é simples, mas ainda subestimado por muita gente: não estamos diante de uma “reforma de tributos”. Estamos diante de uma transformação operacional de grande escala. É por isso que reduzir esse debate a IBS, CBS, novas regras de documento fiscal ou mudanças de apuração é enxergar pouco. A empresa que tratar a reforma apenas como pauta de compliance vai perder uma oportunidade valiosa de reorganizar processo, revisar governança, integrar áreas e reposicionar o papel do fiscal dentro do negócio.
Nesse contexto, o profissional da área fiscal tem uma escolha a fazer. Ou assume protagonismo agora, ou verá esse espaço ser ocupado por outras áreas, por fornecedores de tecnologia ou por agentes externos que conseguiram entender antes o tamanho da mudança. O fiscal que conhece a legislação, entende a operação e consegue dialogar com tecnologia, suprimentos, vendas, financeiro e controladoria tende a se tornar ainda mais estratégico. O que não cabe mais é o papel de mero executor de rotina, preso ao operacional e distante da leitura de negócio.
Essa mudança exige uma disciplina que o mercado, em muitos casos, foi deixando de lado: mapear processos com profundidade. Sem isso, a empresa entra na reforma tributária às cegas. Venda futura, remessa para industrialização, triangularização, devoluções, recusas, créditos, débitos, ajustes e particularidades operacionais precisam estar desenhados com clareza antes que a pressão do calendário cobre decisões apressadas. Processo mal entendido hoje vira inconsistência amanhã. E inconsistência, no ambiente que está sendo construído, custa mais caro e aparece mais rápido.
Esse é outro ponto central da conversa: o risco fiscal entra em uma nova fase. Não se trata apenas de entregar obrigações e esperar, semanas ou meses depois, algum tipo de cruzamento. O modelo avança para uma lógica de apuração muito mais próxima da operação real, com repercussões quase imediatas na formação de débitos, créditos, conferências e potenciais divergências. A ilusão de que haverá tempo de sobra para “arrumar depois” vai perdendo espaço. O novo cenário exige capacidade de monitoramento, revisão e resposta com muito mais consistência do que a maioria das empresas desenvolveu até aqui.
Até 2032, o desafio fica ainda maior porque o país viverá uma travessia complexa. Não basta entender o novo. Será preciso sustentar o velho e o novo ao mesmo tempo. ICMS e ISS continuam exigindo atenção, enquanto IBS e CBS avançam com suas próprias regras, seus próprios ambientes e suas próprias exigências de consistência. Na prática, isso significa conviver com camadas simultâneas de cálculo, apuração, validação e governança. Quem acha que a reforma simplifica desde já talvez esteja confundindo destino com percurso. O destino pode até ser melhor. O percurso, porém, será pesado.
Por isso, confiar cegamente que o fisco “entregará tudo pronto” é um erro estratégico. Mesmo com calculadoras, ambientes de teste, APIs, validações e novas iniciativas institucionais, a responsabilidade de entender a operação e validar o que está sendo produzido continua sendo da empresa. Solução pública ajuda, mas não substitui inteligência interna. Ferramenta acelera, mas não corrige desconhecimento. Em outras palavras: tecnologia sem domínio de processo é só velocidade para errar mais depressa.
Ao mesmo tempo, a reforma abre espaço para uma agenda muito mais inteligente de automação, dados e redesenho de trabalho. O mercado fiscal já vive há anos a pressão por ganho de escala, padronização e redução de esforço manual. Agora, essa pressão se intensifica. Quem souber combinar conhecimento tributário, leitura de processo, uso responsável de automação e boas soluções digitais poderá transformar uma exigência regulatória em vantagem competitiva. Não é exagero dizer que parte relevante do posicionamento das áreas fiscais nos próximos anos será definida por essa capacidade de adaptação.
Foi isso que procurei explorar neste episódio com Jorge Campos: a reforma tributária como um novo território que exige menos improviso e mais preparo. Uma pauta que não pertence só ao fiscal, mas que precisa ser liderada por quem entende o peso da legislação dentro da operação. Se você atua em empresa, consultoria, software house ou liderança executiva, vale ouvir a conversa completa. E aproveite também os demais episódios do José Adriano Talks. A proposta do podcast é exatamente essa: ajudar profissionais e empresas a atravessarem transformações complexas com mais clareza, senso crítico e direção prática.
O José Adriano Talks é apoiado por BlueTax, MitySafe, Grupo LPJ e KTGroup.
Ouça e participe:
O episódio completo está disponível no Spotify e demais plataformas de áudio. Links em https://www.joseadrianotalks.com.br/