A base federativa na revolução tecnológica da reforma tributária

Por Luiz Dias de Alencar Neto e Rodrigo Spada

A reforma tributária não é apenas louvável pelos resultados que entregará à sociedade brasileira, mas também pelo modo como está sendo construída. Trata-se de uma transformação profunda — legal, tecnológica, operacional e institucional — que só tem se tornado possível porque tem sido conduzida de forma cooperativa, envolvendo a sociedade e o Estado em toda a sua extensão, mobilizando de maneira articulada os Poderes da República e os diferentes níveis da Federação.

Neste complexo arranjo federativo, o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) é talvez o exemplo mais eloquente e desafiador de como o sucesso da reforma depende do diálogo e da cooperação entre os entes. Diferentemente da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, o IBS carrega complexidades próprias de um tributo partilhado entre todos estados e municípios, cobrado no destino, com regras de transição, mecanismos de repartição da arrecadação e sistemas de compensação que precisam funcionar de forma absolutamente integrada. Trata-se de um IVA verdadeiramente federativo, que exige coordenação institucional, governança compartilhada e soluções tecnológicas construídas em conjunto.

Essa atuação conjunta não é propriamente uma novidade para os estados, que ao longo das últimas décadas desenvolveram a Nota Fiscal eletrônica, o sistema mais avançado de documentos fiscais eletrônicos do país, referência internacional em escala, confiabilidade e inovação. Também foi nos estados que se acumulou a experiência prática com o imposto que mais se aproxima de um IVA pleno no Brasil: o ICMS. Esse patrimônio técnico e institucional é hoje a base sobre a qual se constrói a arquitetura do IBS.

Colocar de pé a infraestrutura tecnológica capaz de dar conta desta revolução é um trabalho hercúleo que já está em curso há dois anos e vem sendo realizado pelas administrações tributárias de estados e municípios. O sistema de apuração do IBS encontra-se atualmente em fase de testes, com a participação inicial de 134 grandes empresas selecionadas por critérios técnicos, como volume de operações e abrangência nacional. Ambientes de teste, cartilhas orientativas e plataformas de validação já estão em funcionamento. É um esforço silencioso, altamente especializado, mas decisivo para assegurar que a transição ocorra com segurança e previsibilidade.

Toda a complexidade inerente a uma reforma tributária está sendo absorvida pelas administrações tributárias subnacionais. Para o contribuinte, o objetivo é oferecer um sistema simples, intuitivo e transparente. Para o país, é garantir um modelo robusto, capaz de sincronizar informações, harmonizar procedimentos e assegurar justiça fiscal em um ambiente federativo.

Valorizar esse processo é reconhecer que a Reforma Tributária não é obra de um único ente ou de uma única esfera de governo. Ela é fruto da cooperação entre União, estados e municípios, ancorada na capacidade técnica das administrações tributárias estaduais e municipais e na construção de uma governança compartilhada. O IBS nasce, assim, como um imposto verdadeiramente federativo, sustentado pela experiência, pela técnica e pelo espírito de cooperação que marcaram todo o seu percurso.

https://www.estadao.com.br/politica/blog-do-fausto-macedo/a-base-federativa-na-revolucao-tecnologica-da-reforma-tributaria

1 comentário em “A base federativa na revolução tecnológica da reforma tributária”

  1. Por Álvaro Bahia

    O ano de 2026 chegou e, com o apoio de mais de 2.000 servidores, sem alarde ou propaganda, o Pré-Comitê Gestor do IBS, mesmo diante de grandes desafios, realizou entregas expressivas, hoje 100% operacionais e disponíveis para os contribuintes, assegurando confiança e credibilidade aos usuários dos DFe alcançados pelo ICMS e que passaram a ter informações do IBS/CBS.

    Além disso, em tempo recorde, foram entregues novos documentos alcançados por Fatos Geradores exclusivos do IBS/CBS, juntamente com ferramentas do Programa Conformidade Fácil, como o Validador e o Gerador de Arquivos XML, que orientam contribuintes e desenvolvedores na correta emissão de documentos fiscais, em plena conformidade com as notas técnicas publicadas.

    Inicia-se agora uma nova etapa, na qual será necessário concentrar esforços em desafios ainda mais complexos: a construção de processos e sistemas próprios de um tributo partilhado entre todos os Estados e Municípios.

    Neste artigo publicado no jornal Estadão, o colega Luiz Dias, Coordenador Executivo do ENCAT, aborda com clareza os desafios que estão por vir, destacando que a implantação da RTC não é obra de um único ente, mas o resultado da cooperação entre entes e empresas.

    https://www.linkedin.com/posts/%C3%A1lvaro-bahia-373b7a31_a-base-federativa-e-a-revolu%C3%A7%C3%A3o-tecnol%C3%B3gica-ugcPost-7421209097225560064-R8-u?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAAAAeajABN_67n2Dj2td7M2qeK5b9oDUUfXQ

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