Dados, IA e tecnologia são prioridade para 86% dos líderes de tributação e finanças, diz levantamento

Por Márcia Magalhães

Dados, IA (inteligência artificial) e tecnologia estão no topo da agenda de 86% dos líderes de tributação e finanças. É o que afirma a edição de 2025 do TFO (Tax and Finance Operations) Survey, levantamento patrocinado pela EY, empresa de auditoria e consultoria.

O estudo, feito com 1.600 executivos das áreas tributária e financeira de 30 países entre julho e setembro de 2025, abrange 22 setores da economia e aponta que eles estão passando por uma reestruturação para lidar com demandas mais complexas e estratégicas.

Segundo o levantamento, os líderes querem que suas equipes dediquem o dobro de tempo a análises estratégicas, como planejamento de cenários e análise preditiva (que usa dados para antecipar tendências), e reduzam para mais da metade o tempo gasto em atividades rotineiras.

“Para isso, os executivos de impostos e financeiros precisam liberar mais tempo, acessando dados de qualidade em tempo real em um formato que permita soluções de IA de grande magnitude”, afirma Segundino De La Fuente, sócio de impostos da EY Brasil.

De acordo com o estudo, hoje, 53% do tempo dos times de tributos nas empresas é consumido com atividades rotineiras, como as relacionadas à conformidade de declarações fiscais, e 31% do tempo das equipes é gasto com funções tributárias centrais, a exemplo da revisão ou assinatura de declarações fiscais corporativas, gestão de trabalhos consultivos em tributos, políticas fiscais e gestão de riscos. Apenas 16% do tempo é gasto com atividades tributárias altamente especializadas, como planejamento tributário internacional, transações e disputas complexas.

Segundino destaca, nesse cenário, o grau de complexidade do sistema tributário brasileiro e as perspectivas de mudança com a reforma tributária.

“Lidar com tributos hoje no Brasil traz um custo muito elevado para as empresas. Com a reforma tributária há uma expectativa de que preparar a tributação fique mais fácil, até porque a gente deixará de ser o calculador para ser um conferidor daquilo que o fisco efetivamente calculará”, afirma.

Segundo o estudo, a priorização de dados, IA e tecnologia surge no contexto da necessidade de cumprir obrigações fiscais cada vez mais exigentes.

O chamado pilar 2 da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que estabelece um imposto de renda mínimo global de 15% para grandes empresas multinacionais, foi citado por 81% dos entrevistados como a principal mudança legislativa e regulatória que afetam seus negócios.

O impacto da implementação do pilar 2 vai além da estrutura operacional: 85% dos respondentes esperam pagar mais tributos devido às novas exigências. Mesmo assim, só 21% se sentem plenamente preparados para cumprir os requisitos de reporte exigidos pelo BEPS 2.0, como é conhecido o pacote de regras da OCDE.

Os entrevistados esperam que a IA aumente a eficácia do trabalho em até 30% nos próximos dois anos e libere 23% mais orçamento que pode ser realocado para atividades estratégicas e de maior valor.

Para 45% dos líderes tributários e financeiros, contudo, a incapacidade de executar um plano sustentável para dados, IA e tecnologia representa a maior barreira para cumprir a visão e o objetivo de sua função tributária.

Essa barreira, segundo a pesquisa, voltou a ocupar o primeiro lugar entre as preocupações das áreas de tributos e finanças, após ter sido superada pela questão orçamentária no levantamento anterior, referente ao ano de 2024.

A mudança sinaliza uma reorganização na tríade de preocupações composta por dados e tecnologia, retenção de talentos e orçamento. Dados e tecnologia assumiram a liderança, seguidos pela preocupação com a contratação e retenção de profissionais. Orçamento, que antes liderava, caiu para a terceira posição, citado por apenas 4% dos respondentes como o principal entrave.

Cerca de 90% das empresas relatam que seus dados estão armazenados em silos, ou seja, separados em diferentes sistemas ou departamentos que não se comunicam entre si, o que dificulta o acesso, a organização e o reaproveitamento dessas informações.

Outro gargalo está na capacidade de execução: apenas 16% dos entrevistados afirmam estar muito confiantes na sua estratégia de dados, e menos de um em cada quatro diz ter alta maturidade em gestão de dados dentro da função tributária.

A desconexão também é organizacional: só 38% enxergam uma forte conexão entre a estratégia de dados da área fiscal e a da empresa como um todo.

De acordo o levantamento, esse cenário implica na necessidade de uma nova geração de profissionais de finanças e tributos que combinem visão estratégica e pensamento crítico com fluência em tecnologias emergentes, análise de dados e IA, além de profundo conhecimento técnico tributário.

A pesquisa mostra, assim, que 89% das empresas estão capacitando suas equipes atuais, 81% contratam profissionais com habilidades além das técnicas tributárias tradicionais e 62% estão redefinindo papéis e responsabilidades, inclusive com a criação de equipes focadas em atividades de alto valor agregado.

O uso de co-sourcing, modelo em que parte das atividades é terceirizada com gestão compartilhada entre a empresa e o fornecedor, também vem crescendo, com 85% dos respondentes relatando melhorias na capacidade de foco estratégico após transferir tarefas como declaração de impostos e cumprimento de obrigações digitais.

Ao mesmo tempo, 78% afirmam que trabalhar com provedores externos com forte capacidade em IA trará benefícios significativos para a área tributária nos próximos dois anos

O estudo revela ainda que, embora a IA generativa esteja em fase inicial de adoção —apenas 6% afirmam ter modelos transformacionais já integrados— a expectativa é que sua presença cresça rapidamente. A maioria dos líderes está apostando em parcerias com terceiros para acelerar essa transição tecnológica.

Com uma função tributária cada vez mais pressionada por transparência, eficiência e valor estratégico, o futuro das áreas de tributos e finanças, de acordo com o levantamento, passa pela capacidade de usar dados de forma inteligente, o que depende tanto da tecnologia quanto da reorganização das equipes e processos.

https://www1.folha.uol.com.br/blogs/que-imposto-e-esse/2026/01/dados-ia-e-tecnologia-sao-prioridade-para-86-dos-lideres-de-tributacao-e-financas-diz-levantamento.shtml

Íntegra da pesquisa em https://www.ey.com/pt_br/insights/tax/tfo-survey

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