Dinheiro é energia e precisa circular, mas com governança | EP 19 José Adriano Talks com Erasmo Vieira

Por José Adriano

Existe uma armadilha silenciosa na gestão: confundir movimento com resultado. Tem empresa com dinheiro entrando e saindo o mês inteiro, pagando todo mundo, trabalhando duro… e ainda assim não sobra nada. No fim, vira aquele empate que ninguém comemora. No episódio 19 do José Adriano Talks, eu trouxe uma conversa direta e necessária sobre isso: dinheiro é energia e precisa circular, mas com governança.

Neste episódio, recebo Erasmo Vieira, professor da Fundação Dom Cabral e da Faculdade Sebrae, conselheiro, mentor, gestor de investimentos e planejador fiduciário. A frase que dá título ao episódio não é efeito de palco. Ela é um diagnóstico de campo: quando o dinheiro para, trava o negócio. Quando circula sem controle, vaza. E quando circula com governança, vira crescimento, liberdade e decisão boa.

O primeiro ponto que o Erasmo crava é simples e desconfortável: muita gente está “trocando cebola”, aquele clássico seis por meia dúzia. O caixa gira, mas o lucro não aparece. E isso não é só uma questão contábil, é emocional e estratégica. Empresa que só empata vive no limite, perde poder de negociação e vira refém da urgência. No dia a dia, isso costuma aparecer em sinais fáceis de reconhecer: retirada feita no impulso, custo financeiro ignorado como se fosse normal, mistura de conta pessoal com conta da empresa, e decisões tomadas com base em aperto, não em plano.

Aí entra uma sacada que eu gostei muito: juros como multa invisível. Quase ninguém gosta de pagar multa de trânsito. Mas uma parte enorme das empresas paga multa financeira todo mês e trata como “custo do jogo”. Cheque especial, antecipação de recebíveis, financiamento mal planejado, parcelamentos sucessivos… tudo isso é o pedágio de usar dinheiro que não é seu. Crédito não é vilão, eu repito sempre. O problema é crédito sem estratégia, porque ele come margem, mata investimento e cria dependência.

O episódio traz um exemplo que deveria virar cartaz em sala de empreendedor: o empresário que antecipava vendas no cartão e pagava, todo mês, mais juros de antecipação do que o valor da própria retirada. Esse tipo de situação é mais comum do que parece, principalmente em pequenas e médias empresas. O dinheiro não está circulando a favor do negócio. Ele está circulando para fora, direto para o sistema financeiro. E o pior: isso vira rotina. A empresa acostuma a antecipar para sobreviver e, quando tenta parar, sente a abstinência do caixa.

Quando a gente fala em governança, não é “empresa grande e conselho sofisticado”. É o básico bem feito, com disciplina. Separar pessoa física de pessoa jurídica não é formalidade, é sobrevivência. Definir regras de retirada, ter acordos claros entre sócios, organizar o fluxo de caixa, criar ritos de acompanhamento e tratar imposto como compromisso, não como “capital de giro”. Do ponto de vista de compliance, é literalmente fazer o certo do jeito certo, porque a conta chega e quase sempre chega com juros, multa e desgaste.

E aqui a conversa encosta no que muita empresa ainda não quer encarar: a Reforma Tributária vai apertar o jogo do caixa. A lógica de crédito e pagamento tende a exigir mais organização, mais previsibilidade e menos improviso. Quando o tributo passa a depender de pagamento efetivo para viabilizar crédito na cadeia, o “vou empurrar e depois vejo” vira um risco comercial, além de fiscal. Some a isso mecanismos de automação de pagamento, como o split payment, e o recado é claro: vai ser cada vez mais difícil sustentar um negócio em cima de postergação, parcelamento recorrente e gambiarra financeira.

No final, o papo volta para uma dimensão que é muito executiva e muito humana: liberdade. Dinheiro, bem gerido, dá liberdade de tempo, de escolha, de negociação, de estratégia. E tem um ponto que o Erasmo reforça: dinheiro foi feito para gastar, mas gastar direito. Hoje, amanhã e principalmente depois. Empresário que terceiriza o futuro para o INSS está aceitando um risco grande demais. Planejamento financeiro não é para “ficar rico”. É para reduzir erro, evitar decisão emocional e garantir que o negócio sustente a vida, e não o contrário.

Se eu tivesse que traduzir este episódio em prática, eu colocaria três movimentos imediatos na mesa: olhar para o custo financeiro como prioridade (não como detalhe), fechar as torneiras de vazamento do caixa com renegociação e planejamento, e implantar governança mínima com regras claras e rotina de acompanhamento. Sem heroísmo. Sem mágica. Só execução consistente. E se você quer ampliar o repertório, este é exatamente o objetivo do José Adriano Talks: conversas objetivas, aplicáveis, com gente que vive o jogo real. Assista ao EP 19 e aproveite para maratonar os episódios anteriores, porque a soma dessas reflexões é o que muda decisão na vida real.

O podcast José Adriano Talks é apoiado por BlueTaxMitySafeGrupo LPJ e KTGroup.

Ouça e participe:

O episódio completo está disponível no Spotify e demais plataformas de áudio. Links em https://www.joseadrianotalks.com.br/


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