Os segredos que founders e CEOs só descobrem depois de começar | EP 26 José Adriano Talks com Ronaldo Gusmão

Por José Adriano

Se você já empreendeu, provavelmente conhece a sensação: no começo, tudo é energia, improviso e coragem. Você tem uma ideia, um problema pra resolver e uma vontade enorme de fazer acontecer. Só que existe um ponto de virada silencioso, meio ingrato até, em que a lógica muda. Você deixa de ser só empreendedor e precisa virar empresário. E é aí que muita coisa boa pode acelerar, ou tudo pode desandar, sem que você perceba.

No novo episódio do José Adriano Talks, com apoio de BlueTaxMitySafeGrupo LPJ e KTGroup, eu conversei com Ronaldo Gusmão sobre exatamente isso: os segredos que founders e CEOs normalmente só descobrem depois que começam. Ronaldo tem mais de 35 anos como empresário e executivo, atua como conselheiro consultivo para startups e PMEs e é cofundador do Conselho 360 e membro do Board BH. A conversa ficou daquele jeito que eu gosto: prática, direta, com “bastidor” de quem já viveu o jogo e pagou alguns boletos emocionais e empresariais no caminho.

O primeiro ponto é simples, mas dói: empreender é relativamente mais fácil do que ser empresário. Empreender é partir de uma ideia e correr risco para tirar do papel. Ser empresário é cuidar do que mantém a máquina viva: caixa, contratação, demissão, rotina, imposto, energia, fornecedor, cliente, cultura, processos. O empreendedor vive do teste e do ajuste. O empresário não tem esse luxo com tanta frequência. Tentativa e erro, quando a empresa já tem gente dependendo dela, fica caro.

E aqui vem um alerta que eu concordo demais: o momento de “virar empresário” começa na primeira contratação. Muita gente acha que só vira empresa de verdade quando bate X de faturamento ou quando monta um time “de verdade”. Não. A primeira pessoa contratada já muda tudo, porque você passa a gerir alguém, e isso exige método. O Ronaldo soltou uma frase boa para colocar em um post-it: contrate com o coração e demita com o cérebro. Só que antes do coração, tem o básico bem feito: recrutamento, seleção, critérios, alinhamento com valores e cultura. Contratação por amizade, por dó, por improviso, é a raiz de muita dor de cabeça que vira bola de neve.

Ele também bateu numa tecla que, na prática, separa empresa que cresce de empresa que “apaga incêndio”: contratar pensando no futuro, não só no agora. Competência, conhecimento, habilidade e atitude. Se você não domina contabilidade, finanças, gestão, não é vergonha nenhuma. Vergonha é fingir que domina e tocar a empresa no achômetro. O fundador precisa reconhecer onde é forte e onde precisa de gente melhor do que ele. Isso não te diminui. Isso te torna líder.

Aí entramos num tema pouco falado, mas absolutamente real: a solidão do número 1. Não é porque você contratou gente ou tem sócio que essa solidão desaparece. Muitas vezes, ela até piora. Ronaldo trouxe um caso emblemático: uma CEO que começou a decidir tudo sozinha, sem suporte real do CTO e sem repertório para aquele tipo de decisão, e entrou em parafuso. Esse “paradoxo” é típico do nosso tempo: hiperconectados, mas hiper solitários. E o risco não é só emocional. É decisório. CEO solitário tende a decidir mal ou a travar, e as duas coisas custam caro.

Então qual é o caminho? Ele resumiu com uma palavra que dá pano pra manga: humildade. Humildade não é insegurança. É consciência. Consciência do que você sabe, do que não sabe, do que sua equipe sabe e você nem percebe, e do que você nem sabe que existe. Quando o CEO não tem esse radar, ele se desconecta do mercado e da própria empresa. E aí vem o ponto que eu mais gostei: a solução não é achar alguém que te elogie. Mentoria e conselho não são IA bajuladora. São gente boa fazendo as perguntas certas, te ajudando a enxergar o que você não está vendo e te obrigando a decidir com mais qualidade.

Na conversa, a gente organizou bem as opções: amigo e família podem ajudar, mas nem sempre têm repertório e distância emocional. Consultoria é útil, mas normalmente tem escopo e prazo fechados. Mentoria e conselho são outra pegada: mais relação, mais continuidade, mais profundidade. E Ronaldo foi direto: o melhor momento para ter alguém do lado era ontem; o segundo melhor é hoje. Desde a primeira ideia, já faz diferença ter alguém experiente por perto. Inclusive para evitar um dos maiores fatores de mortalidade empresarial: sociedade mal combinada. A dica prática dele é ouro: acordo de sócios. Não é contrato social. É combinado escrito sobre dedicação, dinheiro, papéis e expectativas. Começa simples, revisa depois. Até um guardanapo de boteco pode ser o começo, desde que vire compromisso formalizado.

A partir daí, ele puxa para o que muita empresa negligencia até o dia em que sangra: propósito, visão, missão e valores, no básico do básico. Nada de planejamento estratégico “do outro mundo” para micro, pequena e média empresa. Pé no chão. Por quê, o quê e como. E um lembrete que parece óbvio, mas muita empresa esquece: empresa existe para criar, atrair e manter clientes. Se você está fazendo um monte de coisa e perdeu a essência, é hora de corrigir rota. Estratégia, no fim, é sair do ponto A e chegar no ponto B com recursos e gente certa. E tem um “patrão” que não perdoa: o mercado. Ele não te dá bronca. Ele só para de comprar e vai embora.

Outra camada importante foi cultura. Ronaldo foi sincero: a maioria dos empresários não dá bola para cultura no início. Parece abstrato. Só que cultura é o jeito como as coisas acontecem quando ninguém está olhando. É ritual, exemplo e padrão diário. E se você quer engajamento, não tem saída: cultura precisa ser direcionada. Ele citou um dado que me chamou atenção: apenas 26% dos empregados no mundo estariam engajados (segundo uma pesquisa global que ele mencionou). E engajamento não é “vestir a camisa”. É pertencimento real, é ser ouvido, é incentivo e correção na dose certa, quase como educação de filho: reforço positivo, limite claro e consistência.

Para fechar, teve uma provocação muito atual: rede social cria uma vitrine permanente de sucesso, e o CEO acha que só ele está com problema. Resultado: se isola ainda mais, fica com vergonha de pedir ajuda e perde timing. O antídoto é simples e poderoso: capital social. Comunidade. Grupo de pares. Benchmark. Troca real. Ronaldo citou como esses ambientes ajudam a desmistificar governança e a trazer maturidade de decisão. E se você não tem uma comunidade, crie uma. Chama dois, cinco, dez e começa. Melhor errar rápido com apoio do que repetir erro velho sozinho.

Se esse tema conversa com a sua fase atual, eu te convido a assistir o episódio completo, e a ideia aqui é sempre a mesma: trazer conversas que ajudam quem está no comando a tomar decisões melhores, com mais clareza e menos romantização.

No fim do dia, os takeaways desse papo com o Ronaldo são bem práticos: transição de empreendedor para empresário começa na primeira contratação; solidão do número 1 é real e precisa de suporte estruturado; humildade é ferramenta de gestão, não traço de personalidade; conselho, mentoria e comunidades encurtam caminho e reduzem erro bobo.

O podcast José Adriano Talks é apoiado por BlueTaxMitySafeGrupo LPJ e KTGroup.

Ouça e participe:

O episódio completo está disponível no Spotify e demais plataformas de áudio. Links em https://www.joseadrianotalks.com.br/


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