Por José Adriano
Janeiro de 2026 não é mais “futuro da Reforma Tributária”. É presente, rodando em produção, mesmo como Beta, com pressão real, volume real e risco real. No episódio 22 do José Adriano Talks, eu conversei com o Robson Lima, do Serpro, justamente para tirar a reforma do slide e colocar no lugar onde ela mais dói e mais ajuda: sistemas, dados, processos, segurança e dinheiro no caixa.
Uma das mensagens mais fortes do Robson é simples: não dá para falar de CBS como se fosse só lei e alíquota. Isso virou plataforma do governo, e plataforma tem escala, arquitetura e custo. A NF-e foi o “documento pioneiro” da virada digital lá atrás, mas agora a régua subiu: a reforma do consumo precisa lidar com dezenas de bilhões de documentos por ano, integrar múltiplos tipos de documento fiscal e sustentar apuração assistida com rastreabilidade. É o tipo de projeto em que qualquer improviso vira indisponibilidade, e qualquer indisponibilidade vira caos operacional.
E aí entra a primeira provocação executiva: soberania tecnológica não é discurso patriótico, é requisito de risco. O Serpro apostou numa nuvem soberana de governo para sustentar a reforma, com data centers próprios e gestão interna, sem aquele “acesso administrativo” típico de nuvem pública. A ideia é reduzir uma camada inteira de exposição e manter governança de dados críticos em território e operação controlados pelo próprio Estado. Não é uma escolha estética; é uma decisão de arquitetura para um sistema que vai tocar o coração da economia.
A segunda pancada boa do episódio é a mudança de mentalidade sobre disponibilidade. Quem já sofreu com legados sabe: sistemas antigos crescem por acúmulo, ganham centenas de serviços “pendurados” e viram um castelo de cartas. No modelo novo, o desenho é orientado a eventos, desacoplado, com mensageria e elasticidade. Traduzindo: em vez de um monólito que cai inteiro quando estressa, você tem serviços independentes trabalhando em fila, escalando conforme a demanda, com monitoramento e recomposição automática. Para quem viveu indisponibilidade em portal, e-CAC e obrigação acessória, isso não é detalhe técnico. Isso é continuidade de negócio.
Segurança, aqui, não é só firewall e criptografia. O Robson foi bem direto: o principal guardião da segurança é o usuário. Senha compartilhada, certificado “na mão de todo mundo”, procuração mal concedida e 2FA ignorado continuam sendo o caminho mais curto para problema. Por outro lado, quando o acesso é via gov.br, com procuração eletrônica bem feita, trilha de auditoria e rastreabilidade de quem acessou o quê, você troca o improviso por governança. E governança, no fim do dia, é o que separa conformidade de “torcida”.
O ponto das APIs é outro divisor de águas. A reforma não pode depender de gente clicando em portal o dia inteiro, nem de robô derrubando serviço, como no e-CAC. A proposta respaldada pela LC 227/2025 é API essencial gratuita, com limites de uso razoáveis, para que empresas integrem seus ERPs e façam o dever de casa com fluidez e baixo custo operacional. Para quem precisa de alta frequência, entra uma versão paga. O recado é claro: automação vira o caminho natural, e conciliação manual vira um luxo caro e arriscado.
Agora, a parte que muita gente insiste em tratar como “ano de teste” com cara de “deixa pra depois”. No episódio, fica nítido que 2026 é estrada sendo pavimentada, com produção beta e aprendizagem em tempo real. Em janeiro mais de 600 mil empresas empresas já começaram a destacar IBS/CBS em documentos, vários modelos documentais já circulam e o ecossistema está sendo calibrado na prática. Flexibilização não é convite à procrastinação; é amortecedor para quem precisa ajustar rota sem travar o país.
E quando a conversa chega no split payment: O split acontece na liquidação financeira, nos bastidores, via arranjos de pagamento. E para o split ser “super inteligente”, ele precisa conversar com crédito tributário, tanto da CBS quanto do IBS, para reter o mínimo necessário sem sufocar o fluxo de caixa do fornecedor. Isso muda completamente o tipo de discussão que o CFO e o CTO precisam fazer juntos: não é só fiscal, é tesouraria, integração e governança de dados.
A reforma vai premiar quem trata tecnologia como estratégia e compliance como operação, não como “área”. Se você quer transformar esse novo cenário em vantagem competitiva, o caminho é simples, mas não é fácil: revisar processos de emissão e recebimento de documentos, organizar cadastros e procurações, ativar duplo fator de autenticação como regra, preparar integração por API, testar cedo, errar pequeno e corrigir rápido.
O podcast José Adriano Talks é apoiado por BlueTax, MitySafe, Grupo LPJ e KTGroup.
Ouça e participe:
O episódio completo está disponível no Spotify e demais plataformas de áudio. Links em https://www.joseadrianotalks.com.br/
Vale também conferir o nosso primeiro episódio de set/25: Reforma Tributária Descomplicada: O Que Você Realmente Precisa Saber | EP 1 José Adriano Talks com Rita Eliza da Fiemg em