Por José Adriano
Tem uma frase que parece sábia, mas envelheceu mal no mundo dos negócios: “time que está ganhando não se mexe”. Em contextos muito pontuais, até pode fazer sentido evitar mudanças apressadas. Mas, como estratégia, essa lógica ficou perigosa. Na era digital, enquanto você decide não se mover porque “está funcionando”, o mercado se move, o cliente muda, a concorrência evolui e a tecnologia reposiciona a régua. Foi exatamente sobre isso que conversei com Paschoal Naddeo no José Adriano Talks, apoiado por BlueTax, MitySafe, Grupo LPJ e KTGroup: o risco real não está em mexer demais. Está em achar que o sucesso de ontem garante relevância amanhã.
Paschoal traz uma visão muito prática de quem vive inovação sem romantismo. A provocação central do episódio é simples: se o time está ganhando, a pergunta não deveria ser se ele deve ficar parado, mas como pode continuar melhorando. Não se trata de mudar por ansiedade nem de destruir o que já funciona. Trata-se de entender que zona de conforto, em ambiente competitivo, costuma ser só um nome elegante para atraso em formação. E isso vale para empresas grandes, pequenas, tradicionais ou digitais.
A própria trajetória dele ajuda a explicar esse ponto. Quando a Fiscosoft apostou em distribuição digital de conteúdo jurídico-tributário, a ideia parecia ousada demais para o mercado da época. O padrão ainda era papel, boletim físico, modelo tradicional (eu comecei minha vida na área fiscal aos 12 anos usando estes boletins impressos da IOB). A decisão de operar por meio digital soava quase como heresia. Só que a inovação relevante raramente chega pedindo licença. Ela chega parecendo exagero, desconforto ou maluquice, até virar padrão. O que antes causava estranhamento depois se tornou o novo normal, como aconteceu com blogs, plataformas online e novas formas de consumir informação técnica.
Esse é um ponto importante para executivos: inovar não é apenas lançar algo “futurista”. Muitas vezes, é perceber antes onde a lógica atual já começou a ficar velha. Kodak, Blockbuster e Nokia viraram exemplos batidos, mas continuam úteis porque expõem o mesmo erro estrutural: confundir liderança momentânea com imunidade estratégica. O mercado não respeita legado. Respeita adaptação. E adaptação não acontece só no discurso da transformação digital. Ela nasce da capacidade de ouvir, revisar processo, testar, ajustar e, principalmente, admitir que o modelo atual talvez não seja suficiente para o próximo ciclo.
Na conversa, apareceu também uma ideia que considero essencial: inovação não é sinônimo de disrupção total. Muita empresa trava porque acha que inovar exige jogar tudo fora e começar do zero. Quase nunca é assim. Em muitos casos, o avanço vem de melhoria contínua, experimentação pequena, ajuste incremental, revisão de fluxo e reposicionamento de entrega. Em vez de tentar reinventar a empresa inteira em uma semana, o caminho mais inteligente costuma ser começar simples, validar rápido e aprender com o uso real. Inovação madura tem menos fogos de artifício e mais disciplina.
Outro ponto forte do episódio é a crítica à inovação feita de dentro para dentro. Quando a empresa se apaixona demais pela própria ideia e escuta de menos o mercado, a chance de criar uma “solução bonita para um problema que ninguém tem” aumenta bastante. Por isso, Paschoal insiste em algo que parece básico, mas é decisivo: time, escuta e rua. Ouvir o cliente, ouvir a equipe, permitir divergência interna, testar hipótese com humildade e manter repertório vivo. Não existe reinvenção consistente sem interação real com quem sente a dor, paga a conta ou executa a operação. Inovação sem fricção com a realidade é só PowerPoint bem diagramado.
A conversa também traz um exemplo muito interessante sobre uso inteligente de tecnologia: quando ela deixa de ser enfeite e passa a resolver problema concreto. O caso citado do iFood ilustra bem isso. Em vez de usar dados apenas para registrar comportamento passado, a lógica é identificar uma demanda recorrente não atendida, mapear capacidade instalada nos parceiros e induzir uma nova oferta com base em evidência. Isso é bem diferente de “usar IA porque está na moda”. É tecnologia aplicada para aproximar intenção, operação e resultado. O mesmo raciocínio vale para qualquer negócio: dado sem ação é arquivo; tecnologia sem utilidade é custo com marketing bonito.
No campo tributário e regulatório, esse raciocínio fica ainda mais relevante. A fala de Paschoal sobre transformar ato legal em tarefa direcionada para a pessoa certa dentro da empresa toca num ponto sensível do ambiente corporativo atual: não basta entregar informação; é preciso entregar contexto, prioridade e acionabilidade. Em um mundo mais complexo, empresas multissetoriais e áreas sobrecarregadas não precisam de mais conteúdo solto. Precisam de inteligência aplicada à rotina. Esse movimento vale para compliance, fiscal, financeiro, jurídico e para qualquer área em que o excesso de informação já virou problema operacional.
Talvez uma das mensagens mais fortes do episódio seja esta: não existe gestão séria da mudança sem aprofundamento. Em tempos de excesso de cortes, frases prontas e opiniões embaladas para consumo rápido, muita gente quer operar decisões complexas com base em manchete, recorte ou resumo de grupo de WhatsApp. Isso vale para reforma tributária, para tecnologia e para estratégia de negócio. Mas empresa não se transforma com slogan. Empresa se transforma com leitura, discussão, repertório, teste e decisão bem fundamentada. O atalho da simplificação excessiva costuma sair caro.
Fechando: “time que está ganhando não se mexe” talvez precise dar lugar a uma versão mais honesta com o nosso tempo — time que está ganhando se melhora continuamente. Se você lidera, empreende, decide ou influencia mudanças dentro da sua empresa, este episódio vale o seu tempo. A conversa com Paschoal Naddeo está daquelas que ajudam a pensar melhor, com menos modismo e mais substância. E esse é justamente o propósito do José Adriano Talks: promover reflexões executivas que não param na superfície, conectando estratégia, gestão, tecnologia e transformação real. Procure este episódio e aproveite também os demais conteúdos do podcast. A proposta é exatamente essa: provocar boas perguntas e apoiar líderes e profissionais em ciclos de mudança cada vez mais exigentes.
O José Adriano Talks é apoiado por BlueTax, MitySafe, Grupo LPJ e KTGroup.
Ouça e participe:
O episódio completo está disponível no Spotify e demais plataformas de áudio. Links em https://www.joseadrianotalks.com.br/